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O CÉU DE PETRÔNIO

O CÉU DE PETRÔNIO

por Henry Evaristo


Então Petrônio ergueu-se da poltrona acolchoada onde estivera sonhando durante a tarde e, já ao cair da noite, marchou em direção ao horizonte. Pé-ante-pé ele avançava vencendo a vegetação rasteira da beira da praia. Quando a alcançou, não saberia precisar a qualidade da água porque em nenhum momento seus pés brancos e encarquilhados a tocaram. Ao invés, ele flutuou! Flutuou por sobre as vagas azuis, e sob as nuvens todas branquinhas e arredondadas, percebendo a beleza majestosa do pôr do sol. Ah, como era aquele tesouro pelo qual ele ansiara a vida inteira; e agora entendia que procurara sempre nos lugares errados a sua real felicidade. Era o fim do imenso vazio que sempre o preenchera; do demônio invisível que lhe tirara o sono e a paz, e o tornara, tantas e tantas vezes, algo pouco menos que um cão raivoso.


O horizonte era o portador da paz; o além de lá! E para onde quer que Petrônio olhasse as paisagens que ele avistava, agora vencidos todos os véus e filtros que a vida sempre lhe impusera, lhe arrancavam lágrimas. Era como se, a cada légua avançada, voando rente a água cristalina daquele mar divinal, seu peso fosse diminuindo. Com poucas horasa passadas sua altura já era descomunal e ele podia ver toda a terra lá embaixo. Não havia mais a noite que se avizinhava, mas um dia como nenhum outro. Pássaros dourados passavam ao seu lado acenando e rindo-se em regozijo. E diziam:


"Oh, saudável Petrônio! Nós te bendizemos aqui, nos ares que são nossos, mas também são teus!".


Petrônio soltava então sua gargalhada que tanto fora motivo de chacota entre os seus. Mas agora se sentia à vontade; ali ninguém ria dele, pois todos se ocupavam em apenas rir com ele. E se por acaso as gargalhadas dos bichinhos que andavam pelos ares bem próximos não mais o agradassem, apenas um gesto de seus olhos os calaria.


Ao longe Petrônio avistou um imenso autedor. Tinha luzes que brilhavam e dançavam por sobre toda a extensão de muitos quilômetros entre um lado e outro. Não foi preciso se aproximar para que as letras se tornassem nítidas:


BEM VINDO AO CÉU DE PETRÔNIO


Era o que dizia o autedor. E então aconteceu a coisa mais extraordinária:


De repente toda a extensão do firmamento encheu-se das coisas e das cores mais lindas. Carruagens de ouro e cavalos de diamante; cães e gatos que se abraçavam cobertos de algum pó com cheiro de frutas; homenzinhos de cristal que por ali amostravam seus artigos de pedras raras de terras longínquas. E que entregavam de mãos beijadas a quem quisesse! Estavam então todos cercados de garotinhas loirinhas que olhavam atenciosas para os brilhos profundos que reluziam de suas cestinhas de vime. Ninfetas que flutuavam em nuvenzinhas cor de rosa...


Petrônio maravilhou-se com tudo aquilo. Sua juventude estava de volta. Sua vida despedaçada e perdida, tomada à força durante os anos em que as pessoas se aproximaram dela, recontituíra-se. Não restava mais o menos resquício dos tempos amargos em que mulheres maldosas, amantes oportunistas, amigos traidores e parentes hipócritas povoavam toda a sua existência. Só o que existia agora era a paz, o amor verdadeiro, a beleza real e a calma.


Foi quando as coisas boas de seu passado vieram à tona e ele viu aquilo que já não via nem mesmo em seus sonhos mais febris. Viu as alegrias que sentira na infância e os prazeres que encontrara na adolescência; gritou com a primeira vez que andou de montanha-russa e gemeu com o primeiro orgasmo.


Petrônio encontrara-se consigo mesmo! E nunca mais voltou.

 
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